Milhares de deslocados retornam ao sul do Líbano após início de cessar-fogo entre Israel e Hezbollah
Contrariando recomendações das Forças Armadas de Israel e do Líbano, e também do Hezbollah, milhares de famílias deslocadas começaram a retornar ao sul do território libanês nesta sexta-feira, poucas horas após o início da vigência de um cessar-fogo de 10 dias para negociações — que tanto autoridades do Estado judeu quanto o movimento xiita ameaçaram romper em caso de violações. O Exército libanês denunciou descumprimentos por parte de Israel nas primeiras horas após o início da entrada em vigor.
Um fluxo de pessoas tomou a principal rodovia rumo ao sul do Líbano na sexta-feira, após a entrada em vigor do cessar-fogo. Motoristas esperaram durante horas em engarrafamentos que se formaram na única ponte que ainda permite atravessar o rio Litani, que divide o país. Escavadeiras trabalhavam para reabrir a ponte de Qasmiyeh, bombardeada por Israel horas antes do início da trégua.
Saímos uma hora antes de o cessar-fogo entrar em vigor para podermos chegar à ponte assim que ela abrisse, permitindo que retornássemos à nossa cidade — disse Amani Atrash, de 37 anos, que fugiu para o norte no início da guerra e aguardava em uma fila que se estendia por quilômetros a nordeste de Tiro. — A espera é muito difícil porque queremos chegar lá o mais rápido possível.
A última rodada de confrontos entre Israel e Hezbollah matou mais de 2,1mil pessoas no Líbano e deslocou mais de um milhão de residentes — algumas contagens apontam mais de 2 milhões —, principalmente do sul do país, segundo as autoridades libanesas. Ao menos 13 soldados israelenses também morreram, juntamente com dois civis, de acordo com as autoridades de Israel.
Três escavadeiras, sob a supervisão do Exército libanês, trabalharam desde o amanhecer para liberar a passagem na ponte sobre o rio Litani e preencher a cratera deixada pelo último bombardeio israelense. Assim que a passagem foi liberada, motocicletas e depois carros começaram a atravessar em fila, com alguns buzinando em comemoração e acenando bandeiras amarelas do Hezbollah.
A rodovia que liga as cidades de Sidon e Tiro, no sul, estava congestionada por quilômetros por volta das 09h (03h em Brasília), com dezenas de milhares de carros seguindo para o sul, muitos carregados com colchões, utensílios de cozinha e cobertores. Muitas das pessoas deslocadas não tinham ideia do que havia acontecido com suas casas ao longo das últimas seis semanas de guerra.
Quando fugimos, levamos 16 horas na estrada, e hoje é a mesma coisa — disse Ghufran Hamzeh, que aguardava na ponte de Qasmiyeh com seu filho, após viajar de Beirute, em entrevista à AFP. — Mas isso não importa. O importante é que estamos voltando para nossa aldeia e nossa terra. Não sei se minha casa foi destruída ou não. Se foi destruída, isso não muda nada: vou montar uma tenda na frente dela e ficar lá.
As comemorações pelo cessar-fogo e o retorno apressado para casa ocorrem sob desconfiança no cessar-fogo. Muitos dos que voltavam para o sul demonstravam cautela e sinais de esgotamento com as idas e vindas da guerra, que começou em 2023, foi interrompida em 2024 e retomada em março deste ano.
Ayman Sojod, de 55 anos, que morava nos subúrbios do sul de Beirute antes de fugir para a cidade portuária de Biblos, ao norte da capital libanesa, onde aluga uma casa desde os ataques israelenses contra o Líbano em 2024, voltou aos arredores da cidade para avaliar a situação nesta sexta. Ele disse que planejava levar a família em dois ou três dias.
— Continuarei pagando o aluguel porque não se pode confiar no inimigo — disse Sojod sobre a casa em Biblos. — Ainda estamos preocupados que algo possa acontecer, então esses 10 dias não serão fáceis.
A perspectiva de retorno do conflito foi apontada por Israa Jaber, de 54 anos, como uma possibilidade “devastadora”. Ela deixou sua casa na cidade de Srifa durante os bombardeios no mês passado às pressas. Sua filha, Lamis, de 9 anos, ainda sente falta do ursinho de pelúcia e do estojo de maquiagem que teve de deixar para trás.
— Se tivermos que partir novamente, eu não posso descrever o quão frustrante seria. Seria devastador — afirmou Israa
A trégua pôs fim a uma guerra que começou em 2 de março, depois que o Hezbollah lançou foguetes contra Israel em retaliação à morte do líder supremo do Irã, Ali Khamenei, no primeiro dia de ofensiva de EUA e Israel contra a nação persa — principal aliada do grupo, como parte do “Eixo da Resistência”. As forças do Estado judeu responderam com intensos bombardeios aéreos e uma invasão terrestre no sul.
Embora algumas pessoas que retornavam nesta sexta-feira tenham descrito o fim dos confrontos como uma vitória libanesa, outros definiram a situação como um desastre completo. Morador de Bint Jbiel, cidade que registrou duros confrontos em solo entre tropas israelenses e homens do Hezbollah, Abdullah Raouf Hamzieh, de 54 anos, lembrou-se da euforia que sentiu com o cessar-fogo de 2024, e que foi tomado por uma sensação de vitória para o Hezbollah. A medida que as forças israelenses voltaram a atacar o Líbano no ano seguinte, o entusiasmo se dissipou.
Na verdade, não foi uma vitória, foi um desastre o que aconteceu — disse Hamzieh, que espera que a trégua temporária leve a uma paz duradoura.
O primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, afirmou na quinta-feira que militares do país irão permanecer no sul do Líbano, em uma “faixa de segurança” de 10 quilômetros a partir da fronteira. A permanência dos soldados e o desejo israelense de criar uma espécie de “zona-tampão” entre os dois países é um dos pontos que pode dificultar o avanço das conversas.
Em um comunicado nesta sexta-feira, o ministro da Defesa israelense, Israel Katz, afirmou que os objetivos na guerra contra o Hezbollah não foram alcançados e que uma área do sul do Líbano “não foi desmilitarizada”, acrescentando que isso terá que ser feito “seja por via diplomática ou pela retomada das atividades militares israelenses ao final do cessar-fogo”. Katz indicou que as forças militares israelenses continuarão a demolir estruturas em vilarejos libaneses que permanecem sob controle militar israelense.
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