Médico demitido por cirurgias irregulares em Paulino Neves é acusado de ferir recém-nascido durante cesariana em Barreirinhas

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Em um caso que reacende o debate sobre violência obstétrica no Maranhão, o médico Carlos Alberto Vieira e Silva, demitido em 2023 do Hospital Estadual José Ferreira dos Reis, em Paulino Neves, após denúncias graves de cirurgias irregulares que resultaram na morte de uma paciente, volta a ser alvo de acusações.

Desta vez, em Barreirinhas, ele é apontado por uma família como responsável por um corte na testa de um recém-nascido durante um parto cesariano realizado no dia 1º de janeiro de 2026, no Hospital Regional de Barreirinhas.

O incidente, que gerou revolta e trauma emocional, expõe falhas na contratação de profissionais e levanta questionamentos sobre a fiscalização em unidades de saúde públicas do estado.

O Incidente em Barreirinhas: Um Corte que Marcou para Sempre

A denúncia chegou à redação do Imaranhão.com por meio de uma mensagem desesperada de familiares da vítima. “Bom dia! Desculpe a mensagem por aqui, mas foi onde encontrei um local para fazer uma denúncia que deixou nossa família triste”, escreveu a parente, descrevendo o procedimento cirúrgico conduzido pelo Dr. Carlos Alberto no Hospital de Barreirinhas.

Durante a cesariana, o bebê sofreu um corte profundo na região da testa, provocado por bisturi, exigindo uma sutura imediata com um ponto. O que agravou o sofrimento foi a ausência de anestesia no momento da costura, o que causou choro intenso e dor ao recém-nascido, segundo relatos dos presentes.

Uma enfermeira, temendo represálias, registrou o ocorrido em uma ficha interna: “Corte na testa durante o procedimento, sutura realizada sem anestesia local devido à urgência”. A profissional, segundo fontes próximas, agiu por receio de que a lesão fosse atribuída à equipe de enfermagem.

Fotos do bebê, enviadas à reportagem mostram a cicatriz ainda visível, um lembrete doloroso do trauma.

Não é um caso isolado na unidade. Outra gestante, que preferiu não se identificar, relatou à equipe: “Ele fez um corte em mim para parto normal, sem anestesia. Eu gritei de dor, mas disseram que era ‘procedimento padrão'”. Sobre essa denúncia em questão, o hospital disse que não procede.

Esses depoimentos ecoam o que já foi denunciado em Paulino Neves: intervenções invasivas sem consentimento ou alívio adequado da dor, configurando o que especialistas definem como violência obstétrica.

A direção do Hospital Regional de Barreirinhas foi procurada pela reportagem e prometeu se posicionar “em breve” sobre o caso, e disse que está investigando a conduta do médico.

 

 

Passado Sombrio – Demissão Após Denúncias de “Multirões” e Morte em Paulino Neves

A trajetória do Dr. Carlos Alberto no Maranhão é marcada por controvérsias. Em 2023, ele foi demitido do Hospital Estadual de Paulino Neves após uma série de reportagens do Imaranhão.com expor um esquema de “multirões cirúrgicos” irregulares, realizados sem anestesista qualificado e em condições precárias.

O médico, que atuava como plantonista, era acusado de procedimentos de grande porte – como histerectomias e vasectomias – sem equipe multidisciplinar, em um ambiente sem UTI ou monitoramento adequado.

Um dos casos mais graves envolveu Francidalva, de 40 anos, de Rosário (MA), que morreu em 21 de julho de 2023, horas após uma colecistectomia (retirada da vesícula). A paciente chegou sem exames prévios adequados, como hemograma, e sofreu complicações pós-operatórias: hipotensão, pele fria e dispneia. Sem soro de 500ml disponível (apenas frascos de 250ml foram usados) e sem anestesista, ela faleceu às 21h17min. Familiares denunciaram o ocorrido nas redes sociais, clamando por justiça.

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Outras vítimas compartilharam histórias de descaso em comentários à reportagem de agosto de 2023. Franciane, grávida em trabalho de parto, esperou horas para ser atendida – chegou às 22h, mas só foi transferida às 4h, após “acordar” o médico com batidas na porta. O bebê não resistiu, e ela ficou 21 dias internada lutando pela vida.

Outra paciente, após cirurgia para retirada de vesícula, descobriu uma pedra remanescente e foi orientada a “esperar piorar” para uma nova operação em São Luís. O médico chegou a se gabar em um grupo de WhatsApp de ter realizado mais de 600 cirurgias no ano, incluindo procedimentos complexos, ignorando protocolos da anestesiologia que exigem ventilação mecânica e monitoramento constante.

Sua esposa, Gabriele, enfermeira e diretora do hospital na época, também foi denunciada por realizar triagens e encaminhamentos cirúrgicos indevidos, violando normas do Conselho Federal de Enfermagem (Cofen). Funcionários relatavam pressão psicológica para encobrir os mutirões, com pacientes chegando em “caravanas” de outros municípios, sem acompanhantes, e enfrentando esperas de até 10 horas.

A demissão do casal veio após as reportagens, mas o médico reapareceu em Barreirinhas, sem que haja registros públicos de sanções pelo Conselho Regional de Medicina (CRM-MA).

Violência Obstétrica: Um Crime Silencioso no Maranhão

Esses episódios se enquadram na definição de violência obstétrica, tema de um projeto de lei tramitando no Congresso Nacional desde 2017. O PL 8.219/2017, de autoria do deputado Francisco Floriano (DEM-RJ), tipifica como crime intervenções danosas à integridade física e psicológica de mulheres durante o parto, como cesarianas sem indicação clínica, episiotomias indiscriminadas e negação de acompanhantes ou aleitamento imediato.

A proposta prevê detenção de seis meses a dois anos e multa, com pena agravada para procedimentos como episiotomia sem justificativa médica (um a dois anos).

No Maranhão, onde uma em cada quatro mulheres sofre abusos no parto – segundo pesquisa da Fundação Perseu Abramo –, casos como o de Barreirinhas ilustram a urgência da lei. “É um sofrimento calado, de temor. A mulher precisa confiar na equipe, mas acaba vítima de preconceito e falhas na formação”, alerta a justificativa do PL, que critica práticas extintas pela OMS desde os anos 1990, como cortes desnecessários.

Reação da População e Influências Políticas

A notícia do corte no bebê reacendeu as críticas que o mesmo sofreu antes, “Esse médico não deveria mais pisar em hospital nenhum do Maranhão! Quantas vidas mais?”, desabafou uma moradora local, ecoando o sentimento geral.

Vítimas antigas de Paulino Neves reforçam: “Ele operava por amizade, sem critério. O estado falhou ao recontratá-lo”.

Apurações do Imaranhão.com revelam que Dr. Carlos Alberto tem laços políticos fortes. Ele é ligado a um ex-candidato a prefeito de Paulino Neves e já concorreu a deputado federal, o que o torna influente em municípios do litoral maranhense.

Essa rede pode explicar sua rápida recolocação após a demissão, apesar das denúncias.

O Que Vem Agora?

O Ministério Público do Maranhão (MP-MA) e o CRM-MA devem ser notificados e tem que  investigar o caso de Barreirinhas.

A família da vítima planeja acionar a Justiça por danos morais e materiais. Enquanto isso, gestantes da região pedem mais fiscalização: “Ninguém merece isso no momento mais vulnerável da vida”.

A violência obstétrica não é “acidente” – é falha sistêmica que custa vidas e traumas. 

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Da Redação

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