Milhões em Robótica num mar de erros administrativos em Humberto de Campos
Enquanto o Diário Oficial do Município se perde numa sucessão de erratas e correções primárias de numeração de portarias, a gestão do prefeito Luís Fernando Silva dos Santos acaba de dar um passo financeiro gigantesco: a homologação de um contrato de R$ 9.390.200,00 para um projeto de robótica educacional. A cifra milionária contrasta com a desorganização administrativa exposta no mesmo documento e levanta questões sobre as prioridades e a fiscalização dos gastos públicos na região.
O Contrato Milionário sob a Lupa
No dia 5 de março de 2026, a prefeitura homologou o Pregão nº 0021/2025 em favor da empresa Mais Maker Robotica Educacional Ltda. O objecto é ambicioso: implantação de um “Projeto de Educação Científica, Tecnológica e Digital” para a Secretaria de Educação.
A análise dos itens revela valores que impressionam:
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Salas Maker de R$ 1,7 Milhão: A prefeitura planeia investir em seis “Salas Maker Completas”, ao custo unitário de R$ 284.000,00, totalizando mais de R$ 1,7 milhão apenas neste item.
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Livros Didáticos com Fabricação “Própria”: Milhares de livros para o ensino fundamental foram adquiridos, com preços unitários de R$ 210,00 para os anos iniciais e até R$ 520,00 para os anos finais. Curiosamente, a descrição aponta como fabricante e marca a própria empresa vencedora (“Própria”), levantando dúvidas sobre a exclusividade e a competitividade do certame.
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Kits de Robótica: Foram homologados kits que variam de R$ 1.200,00 a R$ 1.500,00 a unidade, totalizando centenas de milhares de reais em equipamentos.
A Gestão das Erratas
O que torna o gasto ainda mais questionável é a visível confusão na gestão de documentos básicos da prefeitura. A mesma edição do Diário Oficial que sela o compromisso de R$ 9,3 milhões traz nada menos que quatro erratas consecutivas apenas na primeira e segunda páginas.
A administração municipal parece ter tido dificuldades em numerar correctamente as suas portarias de fevereiro, precisando vir a público em março para corrigir que a “Portaria 09” deveria ser a “14”, a “10” a “15”, e assim sucessivamente. Essa falha sistemática na numeração de atos do Gabinete do Prefeito expõe uma fragilidade burocrática que parece ignorada quando se trata de assinar cheques de sete dígitos.
Prioridades em Questão
Num estado onde a educação básica enfrenta desafios históricos de infraestrutura e saneamento, a aposta em robótica de última geração — com impressoras 3D e notebooks de alto custo — soa, no mínimo, como uma escolha audaciosa.
A população de Humberto de Campos deve agora observar se este “Projeto 4.0” trará resultados reais para as salas de aula ou se será apenas mais um exemplo de tecnologia de ponta adquirida a peso de ouro por uma administração que, no papel, ainda tropeça na sequência numérica das suas próprias portarias.
A transparência e a execução deste contrato serão os próximos passos desta investigação.
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