Wall Street Journal: PCC virou uma organização criminosa global e remodelou fluxo de cocaína para os EUA
Uma reportagem do Wall Street Journal publicada neste domingo detalha como o Primeiro Comando da Capital (PCC), facção criminosa nascida no sistema prisional paulista, transformou-se em uma organização global do narcotráfico, com impacto direto nas rotas internacionais de cocaína e nos esforços de combate ao crime organizado.
Segundo a análise, o grupo deixou de atuar apenas no Brasil para operar como uma “multinacional do crime”, com estrutura comparável à de uma corporação. Fundado em 1993 após o massacre do Carandiru, o PCC evoluiu de uma irmandade carcerária para uma rede internacional com presença em diversos continentes.
Um dos pilares dessa expansão é o controle logístico do tráfico. O Porto de Santos, o maior da América Latina, tornou-se o principal ponto de saída da droga rumo à Europa. A organização utiliza técnicas como o “rip-on/rip-off”, em que a cocaína é inserida em contêineres de empresas legítimas sem o conhecimento dos exportadores. Além disso, diversificou suas operações para portos do Nordeste e para Paranaguá, explorando áreas com menor rigor de fiscalização.
A reportagem destaca ainda a aliança estratégica com a máfia italiana ‘Ndrangheta. Nesse modelo, o PCC atua como fornecedor em larga escala, enquanto o grupo europeu é responsável pela distribuição no continente. A diferença de preços é um dos motores dessa parceria: um quilo de cocaína comprado por cerca de US$ 2 mil a US$ 3 mil (entre R$ 10 mil e R$ 15 mil) na fronteira com a Bolívia pode alcançar mais de € 30 mil (cerca de R$ 175 mil) no mercado atacadista europeu.Internamente, o PCC funciona de forma descentralizada, estruturado em departamentos conhecidos como “sintonias”. Entre eles estão a Sintonia dos Outros Estados, responsável pela expansão territorial; a Sintonia da Geral, que coordena ações globais; e a Sintonia Financeira, que cuida da lavagem de dinheiro — hoje com uso intensivo de criptomoedas para dificultar o rastreamento.
Outra rota relevante descrita é a da África Ocidental. Países como Guiné-Bissau e Cabo Verde são utilizados como pontos intermediários, onde a droga é armazenada antes de seguir para a Europa, frequentemente escondida em carregamentos de frutas ou madeira. Portugal aparece como um ponto estratégico de entrada, favorecido pela língua e por laços comerciais, além de ser citado como base para operações logísticas e lavagem de dinheiro.
O nível de profissionalização da facção também chama atenção. O PCC passou a contratar especialistas, como mergulhadores para fixar cargas de droga em cascos de navios e hackers para invadir sistemas portuários e manipular registros de carga.
De acordo com o jornal, o modelo de negócios do grupo se assemelha a uma “franquia”, em que membros pagam contribuições e seguem regras internas, mas mantêm autonomia operacional. Essa flexibilidade contribuiu para sua rápida expansão internacional.
O impacto dessa atuação já é sentido em diversos países. Regiões como Paraguai e Equador enfrentam aumento da violência associado à disputa por rotas ligadas ao grupo. Ao mesmo tempo, autoridades enfrentam dificuldades para conter a organização, já que líderes continuam a comandar operações a partir de presídios de segurança máxima, utilizando sistemas de comunicação que driblam o controle estatal.
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