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Com promessa de usar as Forças Armadas contra o crime, Keiko Fujimori assume a Presidência do Peru

person Por Joabe Santos
schedule 29/07/2026 às 09:53
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Com promessas de liderar uma “reconciliação nacional” e derrotar a crescente criminalidade no país com a ajuda das Forças Armadas — que assumirão, durante estados de emergência, a liderança das operações de segurança e de controle da ordem interna — a líder de direita Keiko Fujimori tomou posse como primeira presidente mulher eleita por voto popular no Peru nesta terça-feira, encerrando uma jornada eleitoral marcada por uma disputa decidida por menos de 50 mil votos — e uma espera particular que envolveu outras três tentativas de chegar à Casa de Pizarro, antes da vitória nas urnas, no mês passado.

Filha do ex-ditador Alberto Fujimori, Keiko prometeu, em um discurso de quase uma hora, governar por cinco anos “e nem um dia a mais”, anunciou o aumento do salário mínimo e adiantou que emitiria decretos de emergência e solicitaria poderes ao Congresso para implementar suas medidas mais urgentes.

.— Não vim oferecer milagres imediatos ou promessas vazias. Vim oferecer método, disciplina, perseverança e um caminho claro. Me comprometo a governar para todos os peruanos, sem exceção, dedicando atenção especial àqueles que permaneceram por muito tempo à margem do crescimento e do progresso do país — disse, anunciando entre suas prioridades o enfrentamento das emergências climáticas e da insegurança.

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No começo do mês, o então presidente interino José Maria Balcazar declarou estado de emergência em 796 distritos, o que representa cerca de 40% do país, devido ao risco iminente de fortes chuvas associadas ao fenômeno El Niño. A medida, com duração de 60 dias, permite ao governo adotar ações e medidas extraordinárias. Em seu juramento, Keiko disse que as Forças Armadas voltarão a assumir o controle da “ordem interna” em áreas dominadas por organizações criminosas, pelo narcotráfico e pela mineração ilegal “durante os estados de emergência”, em coordenação com a Polícia Nacional.

ememos por nossas vidas ao sair às ruas ou que nossas casas sejam inundadas em poucos meses. Vamos recuperar cada bairro, cada rodovia e cada espaço público para as famílias peruanas. Onde quer que o crime organizado, o narcotráfico ou a mineração ilegal tenham arrebatado o controle do Estado, utilizaremos todos os instrumentos que a Constituição disponibiliza.

O número de homicídios no país passou de 1.000 em 2018 para 2.600 em 2025, enquanto as denúncias de extorsão aumentaram de 3.200 para 26.500. Durante a campanha, Keiko prometeu realizar mandados de busca em áreas consideradas perigosas, expulsar imigrantes em situação irregular, instalar tribunais anônimos e retirar o Peru da jurisdição da Corte Interamericana de Direitos Humanos.

Keiko assume um dos cargos políticos mais instáveis do planeta, ocupado por nove mandatários na última década — a maioria deles terminou destituído, preso ou investigado criminalmente. Líder do partido Força Popular e do movimento político atrelado ao nome de seu pai, morto em em 2024, a presidente tem como trunfo a maior bancada no Congresso peruano, que, a partir desta legislatura, começa a contar com um sistema bicameral, dividido em Câmara e Senado, após mais de três décadas.

No total, 60 senadores e 130 deputados foram eleitos em abril para o período 2026-2031. A volta do sistema foi concebida justamente para dificultar a destituição do presidente pelo Legislativo. Assim, a posse de Keiko pode encerrar uma década de instabilidade política e institucional, em que seu partido, o Força Popular, desempenhou um papel crucial nos constantes embates entre o Executivo e o Congresso, agindo para minar governos opositores ou blindar figuras políticas em particular.

Agora, embora o Força Popular tenha conquistado mais cadeiras do que os demais blocos parlamentares — 22 senadores e 41 deputados —, o partido com o segundo maior número de representantes é o Juntos pelo Peu, liderado pelo esquerdista Roberto Sánchez, derrotado por Keiko na disputa presidencial.

Com seis blocos partidários e um Parlamento fragmentado, Keiko precisará chegar a um consenso para governar. E seu partido já começa a costurar apoios importantes no Congresso. No domingo, o Força Popular obteve, por uma margem estreita, o apoio necessário para liderar o Senado ao lado do partido de extrema direita Renovação Popular, que conta com oito cadeiras na Casa. Na Câmara, no entanto, o deputado Óscar Reto Otero assumirá a presidência.

O avanço da agenda governista, no entanto, dependerá da construção de mais alianças no Congresso. Analistas apontam para um papel central do centrista Partido do Bom Governo, cujo apoio daria uma maioria funcional tanto ao bloco governista quanto à oposição de esquerda.

“Consideramos que o resultado representa uma validação inicial do modelo de coalizão que sustenta a governabilidade de [Keiko] Fujimori e sua capacidade de promover uma agenda legislativa favorável ao crescimento”, escreveu o chefe de análise de renda variável da corretora LarrainVial, Luis Ramos, em um relatório recente.

A nova administração também contará com um ambiente macroeconômico mais previsível, o que provavelmente fortalecerá a confiança dos investidores e melhorará as perspectivas de crescimento, afirmou a agência de classificação de risco Moody’s em seu relatório mais recente.A cerimônia na capital peruana contou com a presença de líderes estrangeiros, como o rei da Espanha, Felipe VI, e de presidentes de direita da região, entre eles o argentino Javier Milei, o paraguaio Santiago Peña e o chileno José Antonio Kast. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva não compareceu à posse.

Antes do início do pronunciamento, parlamentares da oposição exibiram fotos de vítimas de protestos e deixaram o plenário. Em seu discurso, Keiko propôs uma aproximação com as forças políticas de oposição.

— Vamos construir pontes de diálogo.

Mas, apesar dos pedidos de união, a herança política de Keiko é motivo de desconfiança. Familiares de vítimas de crimes perpetrados pelo Estado durante o governo Fujimori realizaram na segunda-feira uma vigília com velas e fotografias dos falecidos em uma praça de Lima, rejeitando o novo governo na véspera da posse.

— Não esperamos nada de bom dela… Buscamos justiça há muitos anos e sabemos como eles agem — disse Marly Anzualdo, que ainda procura o corpo de seu irmão, Kenneth, desaparecido em 1993.

No protesto de segunda-feira, somaram-se às famílias de vítimas de crimes de Estado no Peru, grupos de famílias enlutadas mortos nos protestos do governo de Dina Boluarte (2022–2025) — que acusam Keiko e seu partido de proteger a ex-presidente de acusações no Congresso.

— Eles governaram juntos… as mãos deles estão manchadas com o sangue de nossos entes queridos — disse Raúl Samillán, cujo irmão Marco, foi morto por um tiro durante um protesto contra Boluarte, reprimido pelos militares em 2023.

Os manifestantes também criticaram o partido Força Popular por promover, no ano passado, uma lei de anistia para agentes de segurança que respondiam a processos por violações de direitos humanos cometidas durante o conflito interno entre 1980 e 2000.

— Não queremos mensagens; queremos ações e respostas concretas — disse o parlamentar Ernesto Zunini, porta-voz do Juntos pelo Peru, um dos que deixaram o Congresso. — Meu partido representa “famílias a quem o Estado peruano deve dinheiro”.

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