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Papa Leão XIV alerta para riscos da Inteligência Artificial em encíclica com 42.300 palavras: ‘Torre de Babel’

person Por Joabe Santos
schedule 25/05/2026 às 09:28
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O Papa Leão XIV apresentou nesta segunda-feira uma encíclica sobre os riscos da Inteligência Artificial (IA) e fez um alerta a líderes políticos e empresariais para que protejam a Humanidade dos efeitos mais disruptivos da tecnologia.

O documento, uma carta aberta a “todas as pessoas de boa vontade” com cerca de 42.300 palavras, expõe a preocupação do Pontífice com a preservação da dignidade e da autonomia humanas em uma era em que sistemas digitais podem substituir pessoas em diversos papéis profissionais e sociais. O texto foi apresentado ao lado de Christopher Olah, cofundador da Anthropic, uma importante empresa de IA, em um gesto simbólico de diálogo entre os mundos religioso e tecnológico.

Embora ressalte que “a tecnologia não deve ser considerada, em si mesma, como uma força contrária à Humanidade”, o Papa afirma que “a busca por maiores lucros não pode justificar escolhas que sacrificam sistematicamente empregos”.

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Entre as propostas, Leão defende a regulamentação das empresas que lideram o desenvolvimento da IA, a proteção e requalificação de trabalhadores ameaçados pela automação, a educação para o uso crítico da tecnologia e medidas para proteger crianças de conteúdos violentos, sexualizados ou falsos. Também pede garantias de que decisões sobre o uso de armas permaneçam sob controle humano.

O Pontífice também recorre a imagens bíblicas para ilustrar o que considera uma encruzilhada para a Humanidade.

“A escolha fundamental não é entre dizer ‘sim’ ou ‘não’ à tecnologia, mas entre construir Babel ou reconstruir Jerusalém”, escreveu.

Na tradição bíblica, a Torre de Babel simboliza um projeto grandioso e centralizado, guiado pelo orgulho, pelo lucro e por uma tendência à homogeneização. Já a reconstrução de Jerusalém representa a cooperação entre diferentes povos para erguer uma sociedade baseada na convivência e na responsabilidade compartilhada.

O risco, segundo ele, é que os seres humanos sejam reduzidos a “meras engrenagens em um sistema impulsionado pela busca por eficiência”.

O Pontífice enfatiza ainda a necessidade de preservar um papel social para todos.

“Uma sociedade que garante emprego a apenas uma pequena parcela da população, apesar de alto nível de desenvolvimento técnico, corre o risco de levar muitos à inatividade forçada, à falta de responsabilidades e de estímulos cotidianos, resultando em empobrecimento humano e cultural”, afirma. “Isso cria um paradoxo de progresso material e regressão antropológica que mina as bases de uma paz social justa e estável”.

A encíclica era aguardada há meses por religiosos, acadêmicos e especialistas em tecnologia, e já é vista como um dos alertas morais mais contundentes até agora sobre o uso excessivo ou indevido da Inteligência Artificial.

Desde o início de seu pontificado, Leão tem destacado os riscos da tecnologia. Em seu segundo dia como Papa, afirmou ao Colégio de Cardeais que a Igreja abordaria os impactos da IA sobre “dignidade humana, justiça e trabalho”. Desde então, voltou ao tema em viagens internacionais, encontros com universidades católicas e até em celebrações do Dia Internacional da Matemática.

Na semana passada, o Vaticano anunciou a criação de uma comissão de alto nível para discutir os desafios impostos pela IA. O antecessor de Leão, o Papa Francisco, também havia alertado para os perigos da tecnologia e defendido seu uso ético.

Embora tenha sido apresentada agora, a encíclica foi assinada em 15 de maio, data que marca os 135 anos de “Rerum Novarum”, texto de Leão XIII que estabeleceu bases da doutrina social da Igreja ao tratar dos impactos da Revolução Industrial sobre os trabalhadores.

Assim como naquele documento histórico, o novo texto, intitulado “Magnifica Humanitas” (“Magnífica Humanidade”), coloca o trabalho no centro do debate. Para o Papa, trabalhar não é apenas uma forma de renda, mas “uma exigência da condição humana”, ligada ao desenvolvimento e à realização pessoal.

Ele demonstra preocupação com o avanço de ferramentas capazes de substituir tarefas rotineiras, o que pode desvalorizar quem não tem acesso à formação necessária para as novas funções. O Pontífice também critica uma visão “insidiosa” que mede o valor das pessoas apenas por eficiência e produtividade.

Segundo ele, estruturas criadas na primeira Revolução Industrial, como sindicatos e instituições de caridade, podem não ser suficientes diante de uma transformação tecnológica que ameaça deixar milhões sem emprego.

“São necessários novos esforços conjuntos entre líderes políticos, organizações trabalhistas, empresas e a comunidade científica para criar regulações e proteções adequadas, inclusive em nível internacional”, escreve.

O documento também pede restrições éticas rigorosas ao uso de armas com IA, reforçando a oposição histórica do Vaticano à guerra. Para o Papa, a facilidade crescente de uso de sistemas autônomos torna conflitos mais viáveis e reduz o controle humano sobre decisões letais.

Apesar das referências religiosas, a encíclica em vários momentos se aproxima de um texto de políticas públicas. Um dos focos é a proteção de crianças, consideradas especialmente vulneráveis aos efeitos da tecnologia.Leão XIV cita estudos que associam o uso precoce e sem supervisão de dispositivos digitais a problemas de sono, atenção, controle emocional e relações sociais, sobretudo nas fases mais sensíveis da vida. Ele defende que pais recebam apoio de escolas e governos para enfrentar riscos como isolamento, bullying e exposição a conteúdos inadequados.

Especialistas divergem sobre o impacto do documento na indústria de tecnologia. Para Brian Patrick Green, diretor de ética tecnológica da Universidade de Santa Clara, na Califórnia, o texto pode servir como um “imperativo moral” para parte dos líderes do setor.

Outros avaliam que o principal público da encíclica continua sendo o clero e os fiéis. Para Noreen Herzfeld, professora de um programa de tecnologia e ética em Minnesota, o documento deve funcionar como referência para padres e educadores, principalmente para aqueles que formam seminaristas e jovens.

Segundo ela, o conteúdo pode orientar conversas com fiéis preocupados com as pressões tecnológicas da vida contemporânea.

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