Trabalhadores resgatados em igreja ligada a pastor preso querem voltar para alojamento no MA
Trabalhadores resgatados durante uma operação na sede da igreja Shekinah House Church afirmaram que desejam retornar ao alojamento onde viviam antes da ação realizada por Auditores-Fiscais do Trabalho, vinculados à Secretaria de Inspeção do Trabalho do Ministério do Trabalho e Emprego (SIT/MTE).
A operação aconteceu na quinta-feira (7), em Paço do Lumiar, e resultou no resgate de mais de 40 pessoas. A igreja era liderada pelo pastor David Gonçalves Silva, preso por suspeita de abusos sexuais, punições físicas e psicológicas contra fiéis.
Após a ação, os trabalhadores foram encaminhados para um alojamento disponibilizado pela Secretaria de Direitos Humanos do Maranhão. Parte do grupo, no entanto, afirma estar insatisfeita com as condições do local e reclama da impossibilidade de retornar ao imóvel onde vivia anteriormente.
“Nós fomos expulsos da nossa casa. Nos retiraram dali como cachorros e de primeira mão, nos colocaram no Castelinho, um lugar totalmente desprezado, as janelas quebradas, os quartos sem colchão. Eu tenho uma filha que inclusive não está indo para a escola, porque a escola era próxima à Sheikinah [a igreja] e nós estamos proibidos de voltar e minha filha não pode voltar a frequentar a escola”, disse uma das trabalhadoras.
Outro trabalhador resgatado, que preferiu não se identificar, afirmou à TV Mirante que deseja recuperar seus direitos e voltar ao local onde morava.
“Me tiraram da minha casa. Eu tinha meu quarto, meu ar-condicionado, meu guarda-roupa. Tinha tudo lá e me expulsaram dizendo que não tínhamos condições de permanecer”, declarou.
Estado afirma que trabalhadores foram orientados sobre direitos
Segundo o secretário adjunto de Direitos Humanos do Maranhão, Eudes Bezerra, todos os trabalhadores foram informados sobre os direitos garantidos pelo Estado e sobre as alternativas de acolhimento disponíveis.
“Desde o início, informamos que eles são livres para ir, ficar ou permanecer. Nós ofertamos um acolhimento digno. Algumas pessoas decidiram voltar para casas de familiares e outras disseram que tentariam retornar para a rua do local”, explicou.
O secretário afirmou ainda que reforçou ao grupo que o acesso à área da igreja permanece restrito e que o Estado não pode obrigá-los a permanecer nos abrigos disponibilizados.
De acordo com Eudes Bezerra, o Ministério Público do Trabalho (MPT) fará uma triagem para garantir acesso ao seguro-desemprego por três meses aos trabalhadores resgatados.
Ele destacou ainda que muitos dos envolvidos não se reconhecem como vítimas de trabalho análogo à escravidão.
“Eles não se reconhecem nessa condição de pessoas resgatadas de trabalho análogo à escravidão e optaram por buscar outro caminho”, afirmou.
Igreja já havia sido alvo de operação anterior
A sede da Shekinah House Church já havia sido alvo de uma operação do Ministério Público do Trabalho e da Polícia Federal no dia 27 de abril, também por suspeitas de trabalho análogo à escravidão. Na ocasião, segundo o MPT, não foram encontrados elementos suficientes para caracterizar o crime.
Nos últimos dias, porém, mais de dez pessoas procuraram a polícia para denunciar o pastor David Gonçalves Silva. Ele é investigado por crimes como estelionato, estupro de vulnerável, posse sexual mediante fraude e associação criminosa.
Segundo a Polícia Federal, a igreja também funcionaria como um espaço de supostos atendimentos terapêuticos sem regularização legal, licença administrativa ou comprovação técnica dos responsáveis.
As investigações apontam ainda indícios de irregularidades nas condições de permanência, segurança e atendimento oferecidos aos residentes do local.
O pastor foi preso no dia 17 de abril. Natural do Ceará, ele é suspeito de aplicar castigos físicos e punições psicológicas a jovens que descumpriam regras impostas por ele. Entre as vítimas, há pessoas do Pará e do Ceará.
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