Desemprego sobe para 6,1%, mas é a menor taxa já registrada em um mês de março
O percentual de pessoas desempregadas no Brasil subiu para 6,1% no trimestre encerrado em março, após alcançar 5,8% em fevereiro. Mesmo com a alta, o número continua surpreendendo, já que é a menor taxa já registrada em um mês e março desde o início da série histórica, iniciada em 2012. No entanto, essa é a primeira vez que a desocupação ultrapassa os 6% em 10 meses. A renda média, por outro lado, bateu novo recorde, chegando a R$ 3.722.
Os números fazem parte da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad Contínua), divulgada pelo IBGE nesta quinta-feira. O resultado veio em linha com o esperado por analistas de mercado, que projetavam alta de 6,1%, segundo mediana calculada pela Bloomberg.
São 6,6 milhões de pessoas procurando trabalho no Brasil, acima dos 6,2 milhões registrados no trimestre encerrado em fevereiro e com alta de 19,6% em relação ao trimestre móvel imediatamente anterior, encerrado em dezembro. Porém, na comparação anual, o contingente de pessoas desempregadas recuou 13,0% (menos 987 mil pessoas).
Já total de trabalhadores empregados no país chegou a 102 milhões, recuando 1% (ou um milhão de trabalhadores a menos) no trimestre móvel, mas permanecendo 1,5% (mais 1,5 milhão de pessoas ocupadas) acima do número registrado no mesmo período de 2025.
Economistas já vinham prevendo uma desaceleração do mercado de trabalho para o início de 2026, após o desemprego chegar ao seu menor nível da história no final do ano anterior. Isso porque os efeitos da elevada taxa de juros já começam a frear a economia e impactar também nos empregos. Ainda assim, esse freio ainda é um tanto moderado, e está acontecendo de forma gradual.
Como explica Fernando de Holanda, economista do FGV Ibre, só número de março só ultrapassou os 6% por questões sazonais.
— Quando a gente faz o ajuste sazonal, a taxa de desemprego tem um crescimento bem mais modesto. Em vez de passar de 5,1% lá em dezembro para 6,1%, na verdade, ele vai de 5,4% para 5,6%. Ou seja, existem sinais de aceleração, mas nada profundo.
Renda bate recorde
Embora os desempregos estejam desacelerando, a renda média continua batendo recorde. Em março, o rendimento chegou a R$ 3.722, acima dos R$ 3.679 de fevereiro, com alta de 1,6% em relação ao trimestre encerrado em dezembro e avanço de 5,5% no ano.
A massa de rendimento médio real, taxa que calcula a soma das remunerações dos trabalhadores do país, também bateu novo recorde em março, chegando a R$ 374,8 bilhões, com estabilidade no trimestre e alta de 7,1% (ou mais R$ 24,8 bilhões) no ano.
Holanda, do Ibre, acredita que esses movimentos refletem uma economia ainda aquecida, além da melhora da composição educacional do país, com mais pessoas mais qualificadas e formais, em postos com melhores remunerações, assim como uma recomposição ainda em curso das perdas salariais da pandemia. Também é o que explica Adriana Beringuy, coordenadora da pesquisa:
“O rendimento cresceu em atividades que reduziram a participação em seus contingentes de trabalhadores informais ou de formais com menores rendimentos”.
Impactos da guerra
Embora possíveis impactos do conflito entre Estados Unidos e Irã no Oriente Médio ainda não estejam tão visíveis neste resultado da pesquisa, economistas acreditam que eles podem começar a aparecem em próximas divulgações.
André Valério, economista sênior do Inter, explica que o choque no petróleo aumenta o preço dos combustíveis, que são itens essenciais no consumo de famílias e empresas, o que significa que elas precisam manter o consumo, mesmo com o preço subindo. Isso, segundo ele, pode gerar uma destruição de demanda real, com os consumidores cortando as despesas em outras categorias para continuar consumindo o combustível necessário.
— Esse movimento tem o potencial de criar um círculo vicioso: os consumidores cortam consumo de bens e serviços não essenciais. As empresas produtoras desses bens e serviços veem sua demanda diminuir, o que leva a ajuste na produção, potencialmente levando a demissões. As demissões diminuem a renda da economia, realimentando o ciclo — explicou.
Esse processo, no entanto, não ocorre de forma imediata, e pode ser atenuado por medidas de apoio propostas pelo governo. Além disso, com a metodologia da Pnad, que utiliza uma média móvel trimestral, os possíveis impactos do conflito no mercado de trabalho só devem aparecer a partir do trimestre móvel encerrado em maio.
Ainda assim, se mesmo antes do conflito já não se via uma normalização da política monetária para esse ano, já que mesmo com cortes maiores os juros ainda continuariam em patamar elevado, agora o cenário econômico encontra ainda mais desafios para se manter robusto com a inflação mais pressionada e um Comitê de Política Monetária (Copom) cortando juros de forma mais moderada.
— Com o conflito e a maior cautela por parte do Comitê em meio ao risco inflacionário, teremos uma Selic média mais alta para 2026, potencialmente desacelerando a economia, principalmente via crédito, impactando negativamente investimentos e contratações.
Ariane Benedito, economista-chefe do PicPay, explica que isso pode afetar os postos de trabalho especialmente nos setores mais sensíveis ao ciclo econômico, como construção e indústria.
— Isso significa que um choque vai destruir os empregos no curto prazo de uma forma mais lenta, mas pode aumentar esse ritmo ao longo do tempo, se a gente continuar tendo uma expectativa pior em relação à conjuntura econômica por parte do sentimento do empresário, do sentimento do consumidor, que também tem um reflexo ali de aumento ou não de produtividade e produção.
Por outro lado, ela acrescenta, a renda real pode ser impactada mais rapidamente diante das pressões inflacionárias que já aparecem no IPCA. Isso porque os rendimentos do trabalho vem sendo sustentados pelo mercado de trabalho ainda apertado e uma inflação em trajetória de desaceleração antes da guerra. Porém, o choque de energia altera o equilíbrio que havia no momento antes dos avanços dos conflitos.
— Se a inflação voltar a acelerar, principalmente em itens sensíveis como combustíveis e alimentos, e passar a contaminar outros núcleos, o ganho real da renda tende a ser mais comprimido. Mesmo com os salários nominais ainda avançando, teria uma perda significativa do poder de compra, e o consumidor passa a sentir mais o efeito, o que reduz o impulso do consumo e a gente começa a ver em números uma piora dessa conjuntura via demanda.
Comércio perde postos temporários
Como explicou Beringuy, o avanço da renda média até o momento também tem relação com a diminuição de trabalhadores informais. A taxa de informalidade foi de 37,3% da população ocupada, o equivalente a 38,1 milhões de trabalhadores informais. Esse indicador ficou abaixo dos 37,6% registrados no trimestre móvel anterior, e também abaixo dos 38,0% do trimestre encerrado em março de 2025.
Esses postos informais podem ter saído, inclusive, de atividades como o comércio, que está entre os três segmentos que perderam trabalhadores no último trimestre móvel, junto com administração pública e serviços domésticos. Segundo a coordenadora da pesquisa, o recuo nas atividades expressa movimentos sazonais.
— Quando a gente olha essa perda de pessoal no comércio, a gente observa que é sobretudo entre vendedores, balconistas e atendentes. E para além do comércio, temos também aquele segmento da educação fundamental e saúde com aquele ciclo muito relacionado aos contratos temporários na esfera municipal pública. É um movimento característico que ocorre nos primeiros trimestres de cada ano.
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