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Análise: Por que o Papa Leão XIV se tornou um adversário difícil para Trump

person Por Da Redação
schedule 16/04/2026 às 15:01
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O embate entre o Papa Leão XIV e o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, subiu de tom nas últimas semanas e expôs uma disputa incomum entre dois dos líderes mais influentes do mundo. Em meio à guerra no Irã, o Pontífice tem se colocado como uma das principais vozes críticas à postura de Washington e, até agora, segue sem recuar diante das investidas do republicano. A crise marca um confronto raro na história recente. Desde os tempos de Napoleão Bonaparte, no início do século XIX, poucos líderes políticos desafiaram o Vaticano de forma tão direta. À época, o Papa Pio VII resistiu ao imperador francês e, agora, analistas veem paralelos com a postura adotada por Leão XIV, segundo o Wall Street Journal.

Diferentemente do que ocorre em muitos embates políticos, a pressão pública não tem recaído sobre o líder religioso. Segundo observadores, Trump é quem vem enfrentando maior desgaste entre católicos, tanto nos EUA quanto em outros países, após a troca de críticas.

O presidente acusou o Pontífice de alinhar-se à esquerda e chegou a publicar, em sua rede Truth Social, uma imagem gerada por inteligência artificial em que aparece com vestes semelhantes às de Cristo e poderes de cura. A postagem provocou reação negativa, inclusive entre setores conservadores religiosos, e acabou sendo apagada.

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Leão XIV, por sua vez, adotou uma postura direta ao afirmar que não teme Trump e que continuará se manifestando contra o conflito no Irã.

A atuação do Pontífice no cenário internacional também tem se intensificado. Nesta quarta-feira, Leão XIV chegou a Camarões para uma visita de três dias, na segunda etapa de uma viagem pela África que inclui áreas marcadas por conflitos e onde pretende reforçar sua mensagem de paz.

Em discurso ao lado do presidente Paul Biya, no poder há mais de quatro décadas, o Papa defendeu o respeito aos direitos humanos mesmo em contextos de segurança.

— A segurança é uma prioridade, mas deve sempre ser exercida com respeito aos direitos humanos — afirmou. Biya, por sua vez, declarou que “o mundo precisa da mensagem de paz” levada pelo líder religioso.

Estratégia e articulação

 

Para analistas, uma das principais dificuldades do presidente americano é lidar com um Papa que atua de forma mais articulada e menos personalista que seu antecessor, Papa Francisco.

— O Papa não é um ator solo — diz Francesco Sisci, diretor do Instituto Appia. Segundo ele, isso dificulta tentativas de isolamento político do Pontífice.

Sisci descreve Leão XIV como um líder metódico, que constrói consensos dentro da Igreja antes de se posicionar publicamente.

— Esse sujeito é sistemático e metódico, atua nos bastidores e, quando fala, é o passo final — explica. — Francisco era uma estrela do rock, mas Leão é o maestro de uma orquestra.

Enquanto Francisco ficou marcado por declarações contundentes, que por vezes geraram atritos internos, inclusive com bispos americanos, Leão XIV vem ampliando sua base de apoio global ao combinar a defesa da paz e do diálogo com maior ênfase nas doutrinas tradicionais da Igreja.

O cenário internacional também contribui para o fortalecimento do protagonismo do Vaticano. Em meio à instabilidade geopolítica, parte dos analistas avalia que a Igreja Católica vê uma oportunidade de recuperar sua autoridade moral, abalada por escândalos de abuso sexual nas últimas décadas.

Para Sisci, o momento é favorável ao atual Pontífice.

— Isso é uma grande bênção. É excelente para a Igreja, no mundo todo, que ele seja alguém capaz de enfrentar Trump — ressalta.

Pesquisas indicam que a posição do Papa encontra respaldo significativo na opinião pública americana. Um levantamento da NBC News, realizado em março, mostra que Leão tem saldo positivo de 34 pontos percentuais entre eleitores registrados, enquanto Trump apresenta saldo negativo de 12 pontos.

 

Base católica sob pressão

 

O confronto, no entanto, tem implicações diretas na política interna dos EUA. Católicos representam cerca de um quinto do eleitorado e tiveram papel relevante na vitória de Trump em 2024. Agora, parte desse apoio dá sinais de desgaste.

— O ataque ao Papa está afastando eleitores católicos — afirma o reverendo Robert Sirico, cofundador do Acton Institute. — Ele colocou alguns de seus apoiadores mais fortes em uma posição muito desconfortável.

Segundo o cientista político Ryan Burge, a reação também é percebida entre eleitores comuns.

— Você está vendo muitas pessoas que votaram em Trump reagirem de forma menos favorável nos últimos dias, perguntando: “por que você está comprando briga com o nosso Papa?” — conta.

Dados recentes apontam queda na aprovação entre esse grupo. Uma pesquisa da Fox News aponta que 52% dos católicos desaprovam o desempenho do presidente.

Ainda assim, o apoio não desapareceu. Setores conservadores seguem alinhados ao republicano.

— Se o presidente Trump não tivesse intervindo, o banho de sangue seria ainda maior. Como líder do mundo livre, ele é a única pessoa viva com coragem para defender e valorizar a vida — diz o empresário Robert “Bob” Unanue, ex-CEO da Goya Foods, defendendo a atuação do presidente.

 

Escalada e riscos políticos

 

As divergências entre Vaticano e Casa Branca não se limitam ao conflito no Irã. O relacionamento já vinha se deteriorando desde críticas do Papa às políticas migratórias adotadas pelos EUA.

Operações do serviço de imigração americano (ICE), que atingem especialmente católicos latinos, estão entre os principais pontos de tensão. Leão XIV e bispos americanos acusam as ações de violarem a dignidade humana, avaliação rejeitada pelo governo.

A política externa também aprofundou o distanciamento. O uso crescente de força militar por Washington, da Venezuela ao Oriente Médio, ampliou o contraste com a defesa insistente do Pontífice por soluções diplomáticas.

Apesar das críticas, Trump mantém o tom confrontador. Em entrevista ao jornal italiano Corriere della Sera, o presidente voltou a atacar o Papa.

— Ele não deveria falar sobre guerra, porque não tem ideia do que está acontecendo [no Irã] — afirmou.

No governo, há tentativas de suavizar o conflito. O vice-presidente JD Vance adotou postura mais moderada ao reconhecer divergências, mas defendeu limites na atuação do Vaticano.

— Acho que, em alguns casos, seria melhor que o Vaticano se ativesse a questões morais […] e deixasse ao presidente dos EUA a condução da política pública — disse.

A Casa Branca também sustenta que Trump mantém políticas alinhadas a valores católicos. A porta-voz Taylor Rogers citou medidas como ampliação de direitos religiosos e apoio a ativistas antiaborto.

— Nunca houve um presidente melhor para os católicos americanos do que o presidente Trump — afirmou.

Para integrantes da Igreja, no entanto, a separação entre fé e política não é tão simples. Temas como guerra, pobreza e direitos humanos fazem parte do debate moral defendido pelo Vaticano.

— Como viver o Evangelho no mundo real? — indagou cardeal Michael Czerny, em entrevista recente. — Isso é inevitavelmente político.

Segundo ele, cabe à Igreja orientar a consciência dos fiéis, mesmo que isso signifique confrontar líderes de poder.

— O papel da hierarquia da Igreja é formar a consciência das pessoas […] Quando necessário, precisamos dizer a verdade ao poder — concluiu.

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