Como funcionava o esquema de lavagem de dinheiro envolvendo MC Ryan e Poze do Rodo
O esquema que utilizava funkeiros para lavar dinheiro do tráfico operava por meio da chamada “instrumentalização de pessoas físicas”. Segundo a Polícia Federal, o grupo liderado por Ryan Santana dos Santos, o MC Ryan SP, e usava empresas ligadas à produção musical e ao entretenimento para misturar receitas legítimas com recursos oriundos de apostas ilegais e rifas digitais.
O esquema foi alvo da Operação Narco Fluxo, deflagrada nesta quarta-feira, 15. Conforme investigações, o grupo movimentou mais de R$ 1,6 bilhão nos últimos 24 meses, e Ryan foi identificado como o líder e principal beneficiário econômico da estrutura.
A escolha de artistas e influenciadores era estratégica, como explicou o delegado regional Polícia Judiciária, Marcelo Maceira. Com milhões de seguidores e alta circulação financeira, esses nomes conseguiam movimentar grandes quantias sem levantar alerta imediatos nos sistemas de compliance bancário.
— Essas pessoas públicas com muitos seguidores conseguem movimentar grandes quantias sem chamar a atenção dos sistemas de compliance das autoridades e dos bancos. Então eles são muito úteis e facilmente recrutáveis por essas organizações, por essa estrutura de lavagem — disse.
O dinheiro ilícito, continuou o delegado, vinha do tráfico, bets e rifas ilegais, e era “limpo” ao ser pago a esses artistas como se fosse por publicidade regular, permitindo que eles adquirissem patrimônio de luxo e ostentassem na internet.
O esquema também utilizava processadoras de pagamentos legalmente constituídos para fazer circular o dinheiro e descentralizar os recursos por meio de “contas de passagem” e laranjas.
O dinheiro também era “lavado” por meio de pagamentos por supostas ações publicitárias. Com os valores, os envolvidos adquiriam imóveis, veículos de luxo — como Porsche e BMW — e joias, ostentando um padrão de vida que também funcionava como vitrine para atrair novos apostadores às plataformas ilegais.
Para dificultar o rastreamento, o grupo utilizava processadoras de pagamento e realizava centenas de transferências fracionadas — técnica conhecida como “smurfing” — além de recorrer a “laranjas” e empresas de fachada para dispersar os recursos.
No exterior, a organização recorria a ativos digitais, especialmente a criptomoeda USDT (Tether), para remessas internacionais e ocultação de patrimônio.
Embora o esquema fosse divulgado como “bets” e rifas, a Polícia Federal sustenta que sua base está ligada ao crime organizado. A investigação é um desdobramento de apreensões de drogas realizadas em 2023 e indica que parte do capital que alimentava o sistema tem origem no tráfico internacional de entorpecentes.
— Quando a gente fala em dinheiro que vem do tráfico de drogas, a gente fatalmente vai chegar em facções criminosas. […] A investigação demonstra isso, que parte do dinheiro que foi captado e depois despejado nessa estrutura é oriundo do tráfico de drogas — disse Maceiras.
De acordo com a investigação, Ryan foi identificado como “líder e beneficiário econômico da engrenagem” enquanto MC Poze, que também foi alvo de um mandado de prisão preventiva, assim como outros investigados, aparecem vinculados a empresas e estruturas financeiras relacionadas à circulação de recursos oriundos de rifas digitais e apostas.
Já o dono da página “Choquei”, atuava como operador de mídia da organização, “recebendo altos valores diretamente […] Sua função consiste, em tese, na divulgação de conteúdos favoráveis ao artista e na promoção de plataformas de apostas e rifas, além de potencialmente atuar na mitigação de crises de imagem relacionadas às investigações”.
Mais de 200 policiais federais cumprem 45 mandados de busca e apreensão e 39 de prisão temporária, expedidos pela 5ª Vara Federal de Santos, dos quais 33 foram cumpridos. As diligências ocorrem em endereços nos estados de São Paulo, Rio de Janeiro, Pernambuco, Espírito Santo, Maranhão, Santa Catarina, Paraná, Goiás e no Distrito Federal.
Durante o cumprimento das ordens judiciais, já foram apreendidos veículos, valores em espécie, documentos e equipamentos eletrônicos que devem subsidiar o aprofundamento das investigações, além de um fuzil. Os envolvidos poderão responder pelos crimes de associação criminosa, lavagem de dinheiro e evasão de divisas.
Em nota, a defesa do MC Poze do Rodo afirmou que “desconhece os autos ou teor do mandado de prisão”, e que “com acesso aos mesmos, se manifestará na Justiça para restabelecer sua liberdade e prestar os devidos esclarecimentos ao Poder Judiciário”. Já os advogados da GR6, do empresário Rodrigo Inácio de Lima Oliveira, que também foi alvo de um mandado de prisão, diz que os valores e transações financeiras mencionados referem-se a “relações comerciais lícitas e regulares, inerentes à atividade empresarial da companhia, todas devidamente formalizadas e respaldadas por contratos e documentação fiscal”.
“A GR6 e seu sócio reiteram que não houve a prática de qualquer ato ilícito e seguem à disposição das autoridades competentes, colaborando integralmente com a investigação e prestando os esclarecimentos necessários”, escreveram.
A Operação Narco Fluxo é um desdobramento da “Operação Narcobet” (do final de 2025) e da “Operação Narcovela” (de abril de 2025). Tudo começou, segundo as autoridades, com uma apreensão de drogas em um veleiro ainda em 2023.
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